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Prática clínica

Modelo de anamnese nutricional: roteiro completo pra consulta

Veja um modelo de anamnese nutricional completo, bloco a bloco, com perguntas esquecidas, dicas pro online e o que registrar no prontuário.

Equipe Nootrix 9 min de leitura
Nutricionista de jaleco anotando em prancheta durante consulta, com paciente sentado à frente e frutas sobre a mesa
Neste artigo
  1. O que é anamnese nutricional e pra que ela serve?
  2. Quais blocos um modelo de anamnese nutricional precisa ter?
  3. Como aplicar o recordatório de 24 horas e o questionário de frequência alimentar?
  4. Quais perguntas ninguém lembra de fazer?
  5. Como fazer a anamnese sem virar interrogatório?
  6. Como adaptar a anamnese para o atendimento online?
  7. O que registrar da anamnese no prontuário?
  8. Resumo rápido
  9. Perguntas frequentes
  10. Referências

Primeira consulta, paciente sentada na sua frente, e você na pergunta 37 de uma ficha de quatro páginas. Ela já respondeu sobre intestino, sono e medicamentos, mas ainda não contou por que marcou a consulta. Quando conta, faltam dez minutos.

Todo mundo sai da faculdade com uma ficha de anamnese nutricional. Mas ficha nenhuma ensina a ordem, o tom, nem lembra das perguntas que mudam a conduta: quem cozinha, quanto sobra no fim do mês, o que a paciente já tentou.

Aqui você encontra um modelo de anamnese nutricional completo pra copiar e adaptar, mais as perguntas esquecidas, ajustes pro online e o que a Resolução CFN nº 594/2017 pede no prontuário.

O que é anamnese nutricional e pra que ela serve?

Anamnese nutricional é a entrevista estruturada da primeira consulta. Ela junta história clínica, consumo alimentar, rotina e contexto de vida da paciente pra você chegar a um diagnóstico nutricional e a uma conduta que ela consiga seguir.

Cada bloco precisa responder uma dúvida sua: o que pode estar causando isso, o que limita a adesão, o que muda a prescrição. Se uma pergunta não muda nada na conduta, ela pode sair da ficha ou ficar pro retorno.

E ela não termina na primeira consulta. Muita coisa só aparece quando a paciente confia mais em você. Registre o que surgir depois como complemento, com data.

Quais blocos um modelo de anamnese nutricional precisa ter?

A ordem começa pelo motivo da consulta de propósito: quem se sente ouvida logo no começo responde o resto com mais boa vontade.

Bloco O que perguntar Por que importa
1. Identificação Nome completo (e nome social, se ela pedir), data de nascimento, sexo, gênero, profissão, escolaridade, contato, responsável legal se houver Lista mínima no art. 4º da Resolução CFN nº 594/2017
2. Motivo e objetivo "O que te trouxe aqui hoje?" "O que precisa mudar pra você sentir que valeu a pena?" Prazo que ela imagina Define foco e alinha expectativa
3. História clínica Diagnósticos, cirurgias, internações, história familiar, ciclo menstrual, gestação, alterações de peso recentes (quando, quanto, em quanto tempo) Aponta riscos pra prescrição
4. Medicamentos e suplementos Nome, dose, horário, quem prescreveu, desde quando. Inclua fitoterápicos, chás e o que ela usa por conta própria Interações, efeito no apetite, suplemento duplicado
5. Exames Exames bioquímicos prévios e atuais, com data Ponto de comparação futuro
6. Sinais e sintomas Apetite, saciedade, mastigação, deglutição, azia, náusea, distensão, gases A norma destaca o sistema digestório
7. Intestino Frequência, consistência, esforço, mudanças recentes, uso de laxante Ela raramente traz sozinha
8. Hidratação Quanto bebe e de quê (água, café, refrigerante, suco, álcool), se sente sede Revela hábito, não só volume
9. História alimentar Recordatório de 24 horas ou dia alimentar habitual, frequência de grupos de alimentos, alergias, intolerâncias, aversões, restrições (religiosas, éticas, culturais) Daqui sai a conduta
10. Rotina Horários, trabalho, deslocamento, onde e com quem come, quem cozinha e compra, fim de semana Mostra o que é viável
11. Sono Horários, qualidade, turnos, beliscos noturnos Afeta fome e escolhas
12. Atividade física e mobilidade Tipo, frequência, duração, horário, limitações Ajusta necessidades e horários
13. Contexto social e financeiro Gasto com comida, acesso a mercado e feira, equipamentos de cozinha, rede de apoio A norma pede o nível socioeconômico no inquérito alimentar
14. Relação com a comida Dietas anteriores, culpa, compulsão, restrição, comer por ansiedade Indica quando encaminhar
15. Avaliação e fechamento Antropometria, hipótese diagnóstica, combinados da consulta, próximos passos Fecha o registro

Copie a coluna do meio pra sua ficha e corte o que não serve pro seu público. Quem atende esporte detalha treino; quem atende gestante abre o bloco 3 em subitens.

Como aplicar o recordatório de 24 horas e o questionário de frequência alimentar?

São métodos de inquérito alimentar com funções diferentes.

  • Recordatório de 24 horas (R24h): a paciente descreve tudo o que comeu e bebeu no dia anterior, do acordar ao dormir, com horário, local, preparação e quantidade em medida caseira. Repasse o dia mais de uma vez e pergunte pelo que costuma ser esquecido: café adoçado, beliscos, bebida, molhos. Um dia só não representa o hábito, então confirme se ontem foi típico.
  • Questionário de frequência alimentar (QFA): lista de alimentos ou grupos em que a paciente indica com que frequência consome cada um num período. Mostra padrão, não detalhe. Se usar um pronto, prefira um validado pra população que você atende.
  • Registro alimentar: a paciente anota ou fotografa o que come, na hora. Depende de adesão, mas pega o que o recordatório perde por esquecimento.

Na prática, muita nutri faz o R24h e complementa com perguntas de frequência ("quantas vezes na semana você come fruta?") em vez de um QFA inteiro.

Quais perguntas ninguém lembra de fazer?

As que não estão na ficha da faculdade e explicam muito plano abandonado.

  1. "Quem cozinha na sua casa?" Se não é ela, o plano precisa conversar com quem cozinha.
  2. "O que você já tentou e por que parou?" Evita repetir o que não funcionou.
  3. "Tem alguma comida de que você não abre mão?" Melhor negociar agora do que ela esconder depois.
  4. "Como é seu fim de semana?" O plano costuma quebrar no sábado, não na terça.
  5. "Você come no carro, na mesa do trabalho ou em pé?" Diz muito sobre tempo e atenção.
  6. "Quanto sobra pra comida no fim do mês?" Plano fora do orçamento não é seguido.
  7. "Alguém em casa faz dieta ou comenta sobre seu corpo?" Ambiente pesa mais que força de vontade.
  8. "Usa algum remédio ou suplemento que não foi receitado?" Chá emagrecedor e termogênico raramente aparecem na primeira resposta.
  9. "Tem alguma coisa que eu não perguntei e você acha importante?" Feche sempre com essa.

Como fazer a anamnese sem virar interrogatório?

A ficha é sua. A paciente não precisa sentir que está preenchendo um cadastro.

  • Comece aberto: "me conta o que te trouxe aqui". Deixe ela falar sem interromper. Muitos blocos se respondem sozinhos.
  • Siga o fio, não a ordem: se ela falou de ansiedade no trabalho, puxe sono e beliscos ali mesmo. Depois confira o que faltou.
  • Explique o porquê das perguntas sensíveis: "pergunto do orçamento porque não adianta eu montar um plano que você não consegue comprar".
  • Anote o essencial, complete depois: olho no olho vale mais que prontuário perfeito em tempo real.
  • Não julgue a resposta: "e o refrigerante, quantos copos?" soa diferente de "você ainda toma refrigerante?".

Como adaptar a anamnese para o atendimento online?

O roteiro é o mesmo. O que muda é a logística.

  • Formulário prévio: identificação, medicamentos, suplementos e exames podem vir antes, e a chamada começa pela conversa. Vale pro presencial também.
  • Exames em arquivo, não foto solta no WhatsApp pessoal. Registre no prontuário e tire da galeria.
  • Use a câmera a seu favor: peça pra ela mostrar a geladeira, a despensa ou o prato e o copo que usa. Ajuda a estimar porção.
  • Combine como vai ser a antropometria: aferição guiada, balança de casa ou presencial depois. Registre a origem de cada dado.
  • Confira privacidade: ninguém fala de compulsão com a família na sala.

As regras do conselho pra teleconsulta estão no post sobre telenutrição e o que o CFN permite.

O que registrar da anamnese no prontuário?

A Resolução CFN nº 594/2017 lista o que deve ser registrado na primeira consulta, entre outros itens: identificação do paciente, triagem nutricional, anamnese alimentar e nutricional, avaliação do estado nutricional (com peso, estatura e IMC como obrigatórios), hipótese diagnóstica de nutrição e prescrição dietética. Nos retornos, pede data, alteração ou manutenção da conduta e reavaliação.

A resolução também define a forma do registro:

  • Linguagem técnica, clara e sucinta, que outro profissional entenda.
  • Fala da paciente entre aspas ou seguida da sigla SIC (Segundo Informações Coletadas). Então "come doce toda noite por ansiedade (SIC)" é registro válido; "paciente é ansiosa" não é.
  • Só abreviações padronizadas.
  • Identificação profissional em todo registro: nome, profissão e número do CRN.
  • Sigilo e guarda: no consultório próprio, a guarda do prontuário é responsabilidade sua, pelos prazos que a resolução define.

O CFN abriu consulta pública pra revisar a 594/2017, considerando prontuário eletrônico, telenutrição, LGPD e Processo de Cuidado em Nutrição. Até sair a nova norma, a 594 segue valendo. Os cuidados com dado sensível estão no post sobre LGPD no consultório de nutrição.

Um prontuário digital ajuda a não perder nada disso (veja o que testar antes de escolher o seu). No Nootrix, a anamnese fica no prontuário do paciente e salva sozinha enquanto você escreve, então o registro que você completa depois da consulta não some se o app fechar.

Resumo rápido

  • Na anamnese nutricional, cada pergunta precisa mudar alguma coisa na conduta.
  • Comece pelo motivo da consulta e deixe identificação, medicamentos e exames pra um formulário prévio quando der.
  • Rotina, quem cozinha, orçamento e dietas anteriores explicam mais abandono de plano do que qualquer cálculo.
  • R24h mostra o detalhe de um dia; QFA mostra o padrão. Um não substitui o outro.
  • No prontuário, siga a Resolução CFN nº 594/2017: linguagem técnica, fala da paciente entre aspas ou com SIC, identificação profissional em todo registro.

Perguntas frequentes

Quanto tempo deve durar a anamnese nutricional?

Nenhuma norma define. Depende do caso e de quanto você adianta por formulário prévio. O importante é sobrar tempo pra conversa e pra fechar com combinados claros.

Posso mandar a anamnese pra paciente preencher sozinha antes da consulta?

Pode, pra parte cadastral: identificação, medicamentos, suplementos e exames. História alimentar, rotina e relação com a comida rendem muito mais em conversa. Revise com ela o que foi preenchido: o registro é responsabilidade sua.

Preciso refazer a anamnese a cada retorno?

Não. No retorno você registra evolução: data, conduta mantida ou alterada, reavaliação. Se surgir novo diagnóstico, medicamento ou gestação, atualize o bloco com a data.

Existe um modelo de anamnese nutricional oficial do CFN?

A Resolução CFN nº 594/2017 diz quais informações precisam estar no prontuário, mas não impõe uma ficha padrão. Você monta o seu modelo, desde que cubra o que a norma pede. Instituições e serviços de saúde podem ter protocolos próprios.


Este conteúdo é informativo e não substitui a leitura da resolução nem a orientação do CRN da sua região. Se você quer uma anamnese que fique no prontuário do paciente, acessível do celular e sem risco de sumir, entre na lista de espera do Nootrix.

Referências

Pronta pra largar o sistema que trava?

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