Prática clínica
Fórmula de gasto energético: qual usar em cada paciente
Veja qual fórmula de gasto energético usar em cada paciente: Harris-Benedict, Mifflin, FAO/OMS, EER e as equações por massa magra, com roteiro de escolha.
Neste artigo
- Por que existem tantas fórmulas de gasto energético?
- Quais são as principais fórmulas e quando usar cada uma?
- Como calcular o GET a partir da TMB?
- Qual fórmula usar em paciente com obesidade?
- E em paciente hospitalizado ou crítico?
- Roteiro de 4 perguntas pra escolher a fórmula
- Resumo rápido
- Perguntas frequentes
- Referências
Paciente novo na sua frente: 42 anos, sobrepeso, treina musculação três vezes por semana. Você abre a calculadora, joga peso, altura e idade na Harris-Benedict porque foi a que você aprendeu primeiro, e o número sai alto demais pro que ela come hoje.
Não é erro de conta. Cada fórmula de gasto energético foi criada numa população específica, e o erro aparece justamente quando o paciente foge dela.
Aqui você leva o que cada equação faz bem, onde cada uma erra e um roteiro de quatro perguntas pra escolher a fórmula certa na consulta.
Por que existem tantas fórmulas de gasto energético?
Porque nenhuma acerta todo mundo. As equações preditivas foram desenvolvidas medindo o gasto de repouso de um grupo de pessoas e ajustando uma regressão com peso, altura, idade e sexo. Quando o seu paciente tem idade, composição corporal ou nível de atividade muito diferentes desse grupo, a estimativa se afasta da realidade.
O padrão de referência é a calorimetria indireta, que mede o consumo de oxigênio. Como quase nenhum consultório tem o aparelho, a fórmula vira o ponto de partida, e o acompanhamento do peso nas semanas seguintes vira o ajuste fino.
Quais são as principais fórmulas e quando usar cada uma?
| Fórmula | Precisa de | Melhor uso | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Harris-Benedict (1919) | Peso, altura, idade | Comparar com registros antigos | Menos precisa que a Mifflin em adultos |
| Mifflin-St Jeor (1990) | Peso, altura, idade | Adultos em geral, inclusive com sobrepeso | Não considera composição corporal |
| FAO/OMS (1985) e Schofield (1985) | Peso e idade | Crianças, adolescentes e quando falta a altura | Faixas de idade largas |
| EER do IOM (2005) | Peso, altura, idade e atividade | Gasto total direto em adultos saudáveis | Não multiplica por fator atividade |
| Katch-McArdle e Cunningham | Massa livre de gordura | Quem treina e tem composição avaliada | Depende de uma boa avaliação da massa magra |
| Tinsley (2019) | Peso ou massa livre de gordura | Praticantes de musculação | Desenvolvida num grupo bem específico |
Mifflin-St Jeor
É a escolha padrão mais segura pra adultos. Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American Dietetic Association comparou as equações mais usadas em adultos com e sem obesidade: a Mifflin-St Jeor foi a que mais vezes ficou a até 10% do gasto medido, e com a menor faixa de erro.
Harris-Benedict
É a clássica, ainda ensinada e muito usada. O problema é que ela foi desenvolvida com adultos medidos no começo do século passado, e na mesma revisão ficou atrás da Mifflin-St Jeor em precisão. Use se você precisa comparar com avaliações antigas do paciente, mas não como primeira escolha.
FAO/OMS e Schofield
Só pedem peso e idade, com equações separadas por faixa etária desde o nascimento. São as indicadas pra crianças e adolescentes e salvam a consulta quando você não tem a altura do paciente.
EER do Institute of Medicine
Diferente das outras, a EER já devolve o gasto energético total, porque o nível de atividade entra na própria equação. Por isso ela não é multiplicada pelo fator atividade. Se você aplicar o fator em cima dela, superestima o gasto duas vezes.
Katch-McArdle, Cunningham e Tinsley
As três usam a massa livre de gordura, que é o tecido que mais gasta energia em repouso. Em quem treina e tem mais massa magra que a média, costumam acertar mais do que as fórmulas por peso. Tinsley publicou em 2019 equações desenvolvidas em praticantes de musculação, em duas versões: uma por peso e outra por massa livre de gordura.
O ponto fraco é que o resultado só é tão bom quanto a sua estimativa de massa magra. Uma avaliação de dobras malfeita leva o erro direto pro gasto.
Como calcular o GET a partir da TMB?
A conta tem duas etapas:
- TMB: a taxa metabólica basal, que sai da fórmula escolhida.
- GET: a TMB multiplicada pelo fator atividade, que vai de 1,2 pra pessoa sedentária a 1,9 pra atividade muito intensa ou trabalho braçal pesado.
Depois vem o VET, que é a energia que você prescreve: o GET com o ajuste do objetivo. Um déficit pra emagrecimento ou um superávit pra ganho de massa entram aqui.
O fator atividade é onde mais se erra na prática. Paciente que treina uma hora por dia e passa o resto sentado no escritório raramente é "intenso". Na dúvida, comece pelo fator menor e ajuste pelo resultado das primeiras semanas.
Qual fórmula usar em paciente com obesidade?
Pra adultos com obesidade, a revisão sistemática citada acima também apontou a Mifflin-St Jeor como a mais confiável entre as equações comparadas.
Se você tem a composição corporal, vale comparar com Katch-McArdle ou Cunningham: quando as estimativas por peso e por massa magra concordam, você ganha segurança. Quando divergem muito, é sinal de que vale olhar a composição corporal com mais cuidado antes de fechar o VET.
E em paciente hospitalizado ou crítico?
Aí o cenário muda. As diretrizes da ESPEN pra terapia intensiva recomendam usar calorimetria indireta sempre que disponível, porque as equações preditivas erram muito em paciente crítico. Sem calorimetria, siga o protocolo da equipe e da diretriz da sua área, não as fórmulas de consultório.
Roteiro de 4 perguntas pra escolher a fórmula
Use na consulta, na ordem:
- O paciente tem menos de 18 anos? Use FAO/OMS ou Schofield.
- Você tem uma avaliação confiável da composição corporal? Compare Mifflin-St Jeor com Katch-McArdle ou Cunningham. Se ele pratica musculação, inclua Tinsley.
- Não tem composição corporal? Use Mifflin-St Jeor como base. Se quiser o gasto total direto em adulto saudável, a EER é uma alternativa, sem fator atividade.
- As estimativas divergem muito? Escolha a mais conservadora e combine o retorno em duas a quatro semanas pra ajustar pelo peso e pela adesão.
E registre no prontuário qual equação e qual fator você usou. Na reavaliação, você compara a mesma conta, não uma conta nova.
Se quiser ver todas as equações lado a lado com os dados do seu paciente, a calculadora de gasto energético faz isso de graça, com o VET e os macros em g/kg.
Resumo rápido
- Nenhuma fórmula acerta todo mundo: cada uma foi feita numa população específica.
- Mifflin-St Jeor é a escolha padrão mais segura pra adultos, inclusive com obesidade.
- Harris-Benedict é menos precisa; use pra comparar com registros antigos.
- FAO/OMS e Schofield são as indicadas pra menores de 18 anos.
- Equações por massa magra acertam mais em quem treina, se a avaliação for boa.
- A EER já é o gasto total: não multiplique pelo fator atividade.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula mais precisa para calcular a TMB?
Pra adultos em geral, a Mifflin-St Jeor foi a que mais vezes ficou a até 10% do gasto medido numa revisão sistemática de equações preditivas. Em quem treina e tem composição corporal avaliada, as equações pela massa livre de gordura costumam acertar mais.
Qual a diferença entre TMB, GET e VET?
A TMB é o gasto em repouso. O GET é o gasto total do dia, a TMB vezes o fator atividade. O VET é a energia que você prescreve, o GET com o ajuste do objetivo.
Posso usar a média de várias fórmulas?
Pode ser um ponto de partida, mas a média esconde o problema: se uma equação está muito fora, ela puxa o resultado. Melhor entender por que elas divergem e escolher a que combina com o perfil do paciente.
De quanto em quanto tempo recalcular o gasto energético?
Sempre que o peso ou a composição corporal mudarem de forma importante, ou quando o paciente parar de responder ao plano. Na prática, a cada reavaliação.
A conta é só o começo: o que mostra se o VET está certo é o acompanhamento entre as consultas. O Nootrix, que está em pré-lançamento, guarda o cálculo no prontuário e leva o VET direto pro plano alimentar do paciente. Se quiser testar e garantir o preço de fundador, entre na lista de espera.
Referências
- FRANKENFIELD, D.; ROTH-YOUSEY, L.; COMPHER, C. Comparison of predictive equations for resting metabolic rate in healthy nonobese and obese adults: a systematic review. Journal of the American Dietetic Association, v. 105, n. 5, p. 775-789, 2005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15883556/
- MIFFLIN, M. D. et al. A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. American Journal of Clinical Nutrition, v. 51, n. 2, p. 241-247, 1990. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2305711/
- HARRIS, J. A.; BENEDICT, F. G. A biometric study of basal metabolism in man. Washington: Carnegie Institution of Washington, 1919.
- FAO/WHO/UNU. Energy and protein requirements. WHO Technical Report Series 724. Genebra: World Health Organization, 1985.
- SCHOFIELD, W. N. Predicting basal metabolic rate, new standards and review of previous work. Human Nutrition: Clinical Nutrition, v. 39, supl. 1, p. 5-41, 1985. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/4044297/
- INSTITUTE OF MEDICINE. Dietary Reference Intakes for Energy, Carbohydrate, Fiber, Fat, Fatty Acids, Cholesterol, Protein, and Amino Acids. Washington: National Academies Press, 2005. Disponível em: https://nap.nationalacademies.org/catalog/10490
- CUNNINGHAM, J. J. A reanalysis of the factors influencing basal metabolic rate in normal adults. American Journal of Clinical Nutrition, v. 33, n. 11, p. 2372-2374, 1980. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7435418/
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